A escalada e o zelo pelo próximo – Por que devemos nos preocupar com outras pessoas?

Eu escrevo, um dos meus passatempos prediletos aliás. Só escrevo porque lá atrás, no fim dos anos 1970, a Tia Adélia me ensinou na pré-escola a ler e escrever, através do antigo método do “a”, “e”, “i”, “o”, “u”, e do “beabá”. Hoje em dia não sei bem quais são os métodos que professores usam para lecionarem seus alunos. Já existe até uma escola nos EUA que crianças são alfabetizadas integralmente em plataformas digitais.

Não, elas não sabem escrever com lápis e papel (oremos). Mas o fato é que somos ensinados a ler, escrever, andar e falar. Parece que sozinhos não adquiriríamos tais habilidades.

Foto: TV Globo/Divulgação

A mídia difundiu com bastante rigor há alguns meses, um trágico acidente envolvendo um ator brasileiro conhecido que, ao mergulhar em águas as quais não conhecia, não se informou, ou até mesmo tenha negligenciado os vários aspectos que envolviam toda a região, e acabou infelizmente falecendo.

Situação parecida me foi relatada há um tempo, por um amigo escalador de montanhas que assistiu atônito, à queda de um outro escalador pouco experiente que escalava ali perto. Isso, porque a via que ele almejava escalar, embora de baixa graduação se mostrava um tanto quanto desprotegida. Ou seja, não admitia quedas antes de ser protegida pela segunda vez. Logo, não se mostrava como opção razoável para escaladores iniciantes.

Por portar capacete (indispensável à segurança de quem escala e por vezes negligenciado) e ter recebido pronto-socorro de meu amigo, que aliás é enfermeiro, o acidente não ganhou as mesmas proporções do acidente com o Sr. Montagner, tudo não passou de um grande susto.

O erro de Maslow

Em meados do século passado um conceito sobre a hierarquia de necessidades humanas, foi traduzido em forma de pirâmide, tipo essas pirâmides alimentares, só que no lugar de carboidratos, proteínas, gorduras e outros, a pirâmide de Maslow trazia as principais necessidades humanas. Vale ressalvar que o próprio psicólogo californiano Abraham Harold Maslow, nunca a desenhou no formato de pirâmide. Como ficou conhecida no mundo inteiro, em formato de pirâmide, as necessidades de nível mais baixo deveriam ser satisfeitas antes das necessidades de nível mais alto.

Em sua base ficariam os aspectos fisiológicos como comida, água, sono e excreção. No cume, palavra familiar a nós escaladores (que significa o topo ou ponto mais alto a ser alcançado), ficariam as nossas realizações pessoais como moralidade, criatividade, ausência de preconceitos e aceitação.

Ainda hoje, mais de 50 anos depois, a pirâmide de Maslow possui inúmeros afetos, mas possui também alguns detratores (na verdade possui inúmeros), dentre eles o Psiquiatra austríaco Viktor Emil Frankl que julga ser a nossa ‘’vontade de sentido’’ ou aquilo que faz com que nossa vida tenha sentido, a base dessa pirâmide.

Maslow hoje encontra resistência também por parte da comunidade científica mundial, quando alguns indicam que as necessidades básicas humanas sejam não hierárquicas, ou seja, não respeitam uma ordem linear. Já outros ressalvam décadas depois da Pirâmide de Maslow ser exibida e discutida em meios acadêmicos inclusive, que talvez haja realmente algo errado com essa pirâmide, sobre tudo em sua base, e eu concordo.

Reflitam comigo – Nós humanos somos pertencentes ao grupo de mais de 5.000 espécies de mamíferos que tem como característica comum, o fato de que somos seres dependentes. Isso mesmo! Necessitamos de cuidados primários, ou jamais sobreviveríamos sequer aos primeiros dias de vida. No caso do filhote humano, essa dependência é ainda maior e perdura por muito mais tempo. Imaginem um recém-nascido esquecido num berço, abandonado à própria sorte. Pois é, daria merda, no mínimo (e isso no sentido amplo da palavra).

Temos que ser alimentados, aquecidos, limpos, ensinados a ler, andar, escrever, falar, escalar (escalar não rs rs rs, isso já nascemos sabendo, explicarei em outra oportunidade). Caso não fôssemos amparados, ajudados ou ensinados a fazer tudo isso não sobreviveríamos, ou não nos adaptaríamos ao contexto social em que teríamos de conviver.

Ilustração: Koran Shadmi | http://www.sierraclub.org/

Nunca fomos independentes e nunca seremos do ponto de vista global da vida e não seria justamente num esporte complexo como a escalada que isso ocorreria pela primeira vez. Devemos sempre nos atentar sobre aqueles que escalam ou simplesmente convivem á nossa volta, tipo a premissa espartana quando cada guerreiro se ocupava também da segurança daquele que o ladeava pelo flanco esquerdo e pelo flanco direito.

Escaladores mais experientes, ou melhor conhecedores do setor de escalada em questão, não devem furtassem jamais de anunciar e corrigir uma má conduta de escaladores menos experientes, descuidados ou forasteiros (que não conhecem o local).

Pessoas se lesionam gravemente ou perdem a vida até, por não saberem da existência de abelhas ou outros insetos em determinados locais, por manuseio equivocado ou ausência de equipamentos de segurança como freios e capacetes ou por subestimarem uma via que apesar de fácil graduação seja um tanto quanto desprotegida.

Foto: Eric Hengesbaugh | http://www.rockandice.com/

Se você é novato, inexperiente ou simplesmente não tem certeza absoluta de algo que está prestes a fazer (e isso vale para tudo na vida), seja ‘’humilde’’, não hesite em perguntar, averiguar e se informar antes de agir.

Já você que é mais velho, experiente, ou simplesmente possui mais conhecimento que aqueles que o cercam (e isso também vale para tudo na vida), seja “humano”, ao perceber insegurança em aspectos de qualquer natureza sobre alguém que escala ou convive próximo a você, peça licença (se houver tempo hábil para isso rs rs rs) intrometa-se, de palpite, aconselhe.

Como se diz em Minas Gerais, lá na roça: Dois dedim de prosa num faiz mal pra ninguém.

As palavras ‘’humilde e humano’’ possuem uma mesma raiz etimológica. Ambas vêm do Grego ‘’Humus’’ que significa terra, já a palavra humildade vem do grego ‘’humilis’’ e significa literalmente aquele que fica no chão, ou aquele que se coloca abaixo dos demais, como queiram.

Somos mamíferos e como já disse – praticamente todas as milhares de espécies de mamíferos existentes no planeta são dependentes de cuidados primários para que sobrevivam aos seus primeiros dias de vida, se esse cuidado primário nos for negligenciado, morremos. E de todos os mamíferos do mundo o filhote humano é o que mais dependente e o que mais leva essa dependência para o restante de sua vida. Nós humanos sempre precisaremos ser cuidados, de um ombro amigo, um abraço, um sorriso ou alguém com quem contar.

Montanhas são um excelente lugar para praticarmos o nosso zelo e cuidado com o bem-estar do próximo, uma vez também que se entende, que os que nos cercam farão o mesmo por nós.

Se cuidem.

Quem tem um ‘porque’ enfrenta qualquer ‘como’.
– Viktor Frankl

Rui Paulo é escalador, formado em educação física e trabalha como Personal trainer na região metropolitana da cidade de São Paulo

There are 4 comments

  1. Nathachi

    Muito bom! Eu sinto o zelo de todos, sendo iniciante, e isso é ótimo, na escalada a parceria de ter uma segue e junto de alguém conferir todos os nós e equipos, é cuidado com o outro do inicio ao fim. Tive a felicidade de conhecer o Rui e sua turma e são todos assim, muito zelosos, a comunidade da escalada é muito unida e isso é algo que gosto muito.

  2. Rosemary Oliveira

    Verdade… muito bom esse texto, necessitamos sim uns dos outros!
    Temos de ser prudentes ao que é novo e humilde para aprender o que vamos explorar.
    Bora lá para um bocadinho de prosa!!!
    Abraços Rui Paulo!

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