Crítica do filme “Above The Sea”

Não faz muito tempo torcedores de futebol, quando queriam provocar um torcedor do time rival, proclamava o seguinte “Jogo do seu time é igual episódio do chaves, sempre a mesma coisa e todo mundo sabe como acaba”. A mesma regra parece se aplicar aos filmes protagonizados pelo escalador americano Chris Sharma.

Ultimamente o escalador americano, que mora na Espanha há 10 anos, parece sofrer da síndrome de Sylvester Stallone: reviver os tempos de glória com produções com a mesma fórmula e, às vezes, com os mesmos personagens. Basta assistir à “Os Mercenários” (The Expendables , 2010) para constatar esta afirmação. É o triste exemplo do “envelheceu e não sabe”.

Pois a mesma coisa aconteceu com Chris Sharma. Seu novo filme “Above The Sea” parece uma refilmagem, recheada de imagens e cenas recicladas, das produções que protagonizava 10 anos atrás. Uma espécie de “vale a pena ver de novo”, tão desinteressante quanto o programa televisivo de mesmo nome. Fosse possível resumir em poucas palavras, a produção é “mais do mesmo”. É nítido que desde que fechou contrato de patrocínio com um patrocinador, que sempre procurar criar conteúdos de vídeos de gosto duvidoso (assim como sua qualidade), Sharma padece do mesmo mal que os atores canastrões das novela brasileiras: sempre interpretam o mesmo personagem (quase sempre na mesma história). Ao que parece, o escalador americano, assim como seus produtores, parece ter tido aula com José Mayer ou Susana Vieira.

Above The Sea

Quem acompanhou qualquer filme protagonizado por Sharma no passado, seja produzido pela falecida Big Up Productions ou pela Sender Films, identificará facilmente todos os elementos usados em “Above The Sea”. Chega a ser constrangedor verificar que até mesmo diálogos e frases são idênticos aos de 10 anos atrás. Ao que parece as pessoas que assessoram Sharma em seus filmes, ficaram congeladas em câmara criogênica desde o início do século, acordando somente ano passado para realizar a produção. O que o filme acabou sendo é, à luz da razão, uma refilmagem de tudo que já foi produzido. Nada mais que isso.

O mesmo erro, de desacreditar na inteligência e conhecimento do público, os filmes do super-herói do personagem Homem-Aranha, quando não produzido pela Marvel mas sim pela Sony, também fizeram. Todo e qualquer filme de origem do icônico herói, havia a cena de morte o tio Ben. Foram dois atores diferentes em cinco produções caríssimas, com a mesma cena e o mesmo diálogo. “Above the Sea” padece do mesmo mal: repetir as mesmas coisas, como se o público não fosse inteligente o suficiente de lembrar dos últimos filmes.

Above The Sea

Até mesmo a história principal, que era documentar uma cadena de Chris Sharma em psicobloc na Espanha, já foi feito antes. Mais de uma vez, diga-se. Nem mesmo a vida particular e profissional do escalador é abordada desta vez. Como sempre, apenas pinceladas nos detalhes de sua vida pessoal são mostradas. Curiosamente sempre mostrados como perfeitos, da mesma maneira que anúncio de margarina. Mesmo a escalada de Sharma parece ser realizada com desdém e às pressas. A preocupação parece ser apenas em fazer a propaganda indireta do logotipo cafona de seu patrocinador. Ao menos uma coisa há de se elogiar no filme: não apelou para interpretações falsas (prática que parece acometer as produções outdoor nacionais).

“Above The Sea” abusa pesadamente das fórmulas batidas e surradas de todos os filmes de Sharma. Elogios superlativos de amigos, flashbacks do passado, imagens ao por do sol na Espanha, escalada com os gritos de Sharma, cadena da escalada e fim. Esta é a fórmula usada desde o início.

Para o espectador chega a ser triste ver a decadência, tanto de produtora quanto de escalador, sem sequer abordar a sua opinião a respeito de algo, ou refletir sobre sua trajetória desde o início da carreira. Sharma, como todos deveriam saber (e não abordado no filme com a devida profundidade) possui duas academias de escalada (EUA e Canadá), além de ter tornando-se pai recentemente. Um material que renderia várias reflexões e, pelo menos, colocaria um tom mais adulto à produção.

Claro que “Above The Sea” não é um desastre total, apesar de chegar bem perto. O que há explícito na produção é a insistência ignóbil de repetir o mesmo filme protagonizado por Sharma, como se o expectador fosse o mesmo de outrora. Assistir a Chris Sharma realizar mais uma escalada em mais um psicobloc (também na Espanha), filmado da mesma maneira (até com os mesmos diálogos) é uma verdadeira ofensa à inteligência do espectador.

No filme “O dia da Marmota” (Groundhog Day, 1993), protagonizado por Bill Murray, o personagem está preso no mesmo dia. A mesma coisa parece estar Sharma e os produtores de seus vídeos. Ao menos na produção hollywoodiana, Murray consegue quebrar o feitiço e se livrar da maldição de viver o mesmo dia. Já Sharma e seus produtores parecem que não conseguiram ainda

O filme Chris Sharma é, de longe, o mais fraco do pacote do festival de filmes da Sender Films e, com certeza absoluta, o pior já realizado pela empresa. A produção funcionaria muito mais como um vídeo propagandista no Youtube, mas sequer deveria estar incluído em um festival de filmes. Cabe à produtora, e mesmo a Chris Sharma, sair da zona de conforto e procurar quebrar o feitiço do “Dia da Marmota”.

Talvez o mais decepcionante é que, mesmo afastado das lentes da produtora, Chris Sharma poderia ter sido mostrado como uma pessoa mais madura, que evoluiu socialmente com o tempo. Mas o desejo de perpetuar o visual surfista da Califórnia, ao invés de ilustrar o amadurecimento do homem, falou mais alto aos produtores que apostaram em uma fórmula velha, desgastada, surrada e, infelizmente para eles, obsoleta.

Nota Revista Blog de Escalada:

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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