A rocha nua – uma história fotográfica

Diversos pintores e escultores ao longo dos séculos se utilizaram do nu em suas criações, mas, na fotografia, essa prática é mais antiga do que imaginamos.

Mal se inventou a técnica no ano de 1839 e as primeiras fotografias de nu começaram a surgir.

Inicialmente feitas em estúdio essa modalidade de imagem foi pouco a pouco ganhando as ruas e os cenários naturais foram aparecendo.

Nos dias atuais, mesclando arte, moda, esporte e natureza, o fotógrafo e escalador Dean Fidelman ganhou notoriedade com a publicação de seu ensaio intitulado Stone Nudes.

Trabalhando com a figura feminina, sua forma e curvas, Fidelman criou um espaço de subjetividades em que o corpo da mulher assume um papel que vai além da sensualidade.

É impossível não darmos a máxima atenção às suas fotografias. Há quase quinze anos elas cativam e conquistam nosso olhar para uma observação mais apurada. Somos levados a estudá-las com olhos mais aguçados na tentativa de compreender a complexidade das composições. Em suas imagens o nu representa a beleza da forma humana e sua incrível química a nível estético com a prática da escalada.

Nas fotografias de Fildeman a geometria e a textura ganham destaque e criam uma plasticidade mágica. Na foto 1 a rocha se confunde com elementos mais fluidos, viscosos e ampliam nossa imaginação para além daquilo que pressupomos conhecer.

Nossos sentidos são bagunçados e somos forçados a nos conectar à imagem de forma mais profunda. Não enxergamos somente um nu, mas um corpo que se prende à rocha, músculos desenhados tanto quanto o próprio elemento sem vida. Uma imagem uníssona onde o cenário é tão significativo quanto o elemento principal se confundindo e até se destacando tanto quanto a escaladora.

Foto: Dean Fidelman

Foto 1: Dean Fidelman

Característica marcante do trabalho de Fildeman, a forma, como elemento constituinte da imagem é evidenciada na foto 2. A escaladora está se segurando à rocha assumindo suas linhas curvas e se mimetizando com a paisagem. Na imagem do fotógrafo o mais importante não é o ato propriamente dito de “mandar um lance”, mas sim a totalidade da cena. O olhar da escaladora para baixo contrapõe o significado das forças que a levam para cima (movimento dos braços e pernas), criando um momento estático.

Rocha e mulher como um único ser. Esse desenho também é evidenciado pelo recorte na paisagem causando diferenciação dos planos, onde o primeiro, representado pela escaladora e a rocha, está muito distante do segundo, representado pela cadeia de montanhas.

Essa mesma distância também cria áreas de brilho e contraste bastante distintas valorizando ainda mais a forma.

Foto: Dean Fidelman

Foto 2: Dean Fidelman

Fidelman contextualiza as cenas valorizando uma composição mais elaborada, com distintos elementos construindo os significados.

Na foto 3 a rocha, a árvore e sua sombra e o corpo da escaladora transmitem a sensação de movimento. Nessa imagem a rocha não está “parada” e temos a nítida sensação de que tudo está “caindo”.

O tronco da árvore e sua sombra projetada, a fenda na rocha e as pernas da mulher assumem um paralelismo que direciona o olhar do expectador para o chão.

Essa sensação é contrabalanceada com a ação da modelo que se agarra à rocha para fazer o movimento de ascensão. Podemos supor que o vento fez isso, ou será que o mundo está despencando? Nada aqui é despido de conceitos e cada elemento se conecta ao outro criando significados e inspirando a imaginação.

Foto: Dean Fidelman

Foto 3: Dean Fidelman

Esse nível de complexidade e profundidade conceitual foi fruto de anos de experimentações artísticas e modificação de valores acerca do corpo despido. Ao contrário de Fidelman, cujo trabalho aborda também a rocha como elemento principal e sem o qual sua proposta estética não existiria, as primeiras fotos de nu retratavam as montanhas basicamente como “elemento decorativo”.

As primeiras fotos de nu feitas na natureza surgiram no início do século XX e conheceram seu apogeu após a I Guerra Mundial quando os valores burgueses e a estética nutrida por um ideal clássico desapareciam aos poucos. Nas décadas de 1920 e 1930 o nu feminino passou a ser fotografado enaltecendo virtudes atléticas, evidenciando aspectos pouco valorizados nas mulheres como força e flexibilidade.

O início da relação do corpo nu com a rocha também data desta época quando fotógrafos começaram a utilizar deste elemento para a criação de seus ensaios.

Foto: Anônimo, 1920

Foto 4: Anônimo, 1920

Na década de 1960 o fotógrafo de moda André de Dienes, famoso por fotografar a musa Merilyn Monroe no início de sua carreira, produziu fotografias belíssimas de suas modelos utilizando as montanhas como um de seus cenários principais.

De forma mais elaborada, Dienes trabalhou o corpo nu enfatizando a forma, movimento e textura da rocha e criou uma linguagem poética para as cenas.

Foto: Andre de Dienes, 1960

Foto 5: Andre de Dienes, 1960

Nas imagens de Dienes as montanhas são elevadas a outro patamar assumindo uma função estética mais expressiva.

Ao contrário das fotografias do início do século que usavam este elemento apenas como pano de fundo e evidenciavam o nu propriamente dito, as fotografias de Dienes forneciam ao leitor significados mais contextualizados entre elemento humano e paisagem e provocavam a imaginação do leitor acerca da ação retratada.

Foto: Andre de Dienes, 1960

Foto 6: Andre de Dienes, 1960

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Foto 7: Andre de Dienes, 1960

Dos fotógrafos anônimos, passando por Andre de Dienes até Dean Fidelman, todos encontraram nas montanhas fontes de inspiração para seu trabalho.

Unir a beleza, simplicidade e rigidez da rocha com a delicadeza e harmonia do nu é uma forma de conectar dois elementos aparentemente contraditórios criando uma leveza surpreendente.

Evoluindo de simples pano de fundo a tema principal como os nus de escalada, as montanhas exerceram fascínio por gerações de artistas e inspiraram a criação de obras fotográficas de grande valor estético.

Esperamos que mais artistas se envolvam com este maravilhoso mundo das montanhas e descubram continuamente novas maneiras de nos extasiar e inspirar.

Bibliografia consultada:

TASHEN, 1000 Nudes: a History of Erotic Photography fron 1839 – 1939.
TASHEN, Câmera Work – Alfred Stieglitz: The complete photographs. Berlin 2008.
ANDRADE, Rosane de, Fotografia e Antropologia: olhares fora-dentro.São Paulo: estação Liberdade. EDUC, 2002.
MARRA, Cláudio. Nas sombras de um sonho: história e linguagens da fotografia de moda. São Paulo: SENAC, 2008.

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Sobre o Autor

Juliana Falchetti

Juliana Falchetti

Da cozinha para o mundo. Nutricionista de formação se encantou pela fotografia e vídeo e encontrou na moda e nos esportes ao ar livre uma paixão forte e duradoura. Pós-graduada em Fotografia realizou expedições fotográficas e produções audiovisuais pelo Brasil e Argentina

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