A primeira a gente nunca esquece…

– Põe a mão ali. Ali ó!

 – Ali onde? Não tem mão aqui!

  – Tá vendo essa rachadura? Que começa na altura da sua cintura?

 – Humm.

 – Ali é mão.

 – Aqui nessa [email protected]#$%inha?!

 – Isso. Bota a mãe esquerda aí. Aí é mão.

  – Tá de sacanagem! Qual a chance da minha mão esquerda, que é toda desengonçada, pegar ali e ficar? Sem chance!

Mas a mão ficou.

Hoje é dia 21 de julho, estou num lugar bucólico e simpaticíssimo chamado Falésia Paraíso, em Pindamonhangaba/SP, pendurada por uma corda a uns cinco metros do chão.

Lá embaixo, escondido entre galhos, folhas e raios de sol, está Marcus, meu namorado, me “dando seg”, em linguajar comum à atividade, mas praticamente desconhecido por mim.

É a primeira vez que escalo na rocha e minhas pernas tremem igual gelatina.

O Marcus começou a escalar tem cerca de 6 meses e, pra ser bem sincera, nunca perguntei pra ele o porquê.

Todo mundo começa a escalar por algum motivo: exercitar-se, superar o medo de altura, praticar um esporte em contato com a natureza, desafiar-se, provar que pode, ou simplesmente ir na onda de um amigo ou daquele programa de TV onde a escalada parece ter muito glamour.

As variadas motivações me fazem lembrar da resposta de George Mallory, alpinista britânico pioneiro nas investidas no Monte Everest, quando perguntado por jornalistas: “Mas por que escalar o Everest?”.

A resposta não poderia vir mais simples: “Porque ele está lá”.

Ironicamente, Mallory faleceu no topo da montanha e ninguém tem certeza se ele realmente chegou “lá”, apesar de eu acreditar que isso não faz a menor diferença, porque não tira o pioneirismo do cara.

Nessa de provar que consegue, ao estilo Mallory, lembro de ter lido uma reportagem onde, perguntado sobre por que escalar determinada montanha, um alpinista respondeu: “Porque eu posso”.

Meu caso, meus caros, é mais simples.

Foi a curiosidade e os convites do namorado os grandes motivadores. Sou mesmo do tipo que gosta de experimentar coisas novas e que jamais responde que não gosta de tal coisa sem antes ter feito.

Uma aventura também é sempre bem-vinda.

 – É normal esse tremorzinho, você está com medo e usando músculos que geralmente não usa com tanta intensidade no dia a dia.

Bondade dele chamar aquilo de tremorzinho: a formiga que passeia por ali pensa tratar-se do maior terremoto registrado nas Américas.

Ok, respira, concentra, tremer é normal. Na escalada indoor eu também dou lá minhas tremidinhas, mas nada comparado a isso.

Aliás, eu havia escalado em academias umas 7 ou 8 vezes, não sabia se eu estava preparada para a rocha.

Não sabia como era a textura, se a sapatilha ia mesmo aderir naqueles milímetros quadrados de pedra enquanto alguém mais experiente grita lá debaixo que sim, a pontinha do pé deve ser colocada exatamente ali. De qualquer forma, só há um jeito de descobrir: encarando.

Robin.

Esse é o nome da minha primeira via na pedra e a primeira, dizem, a gente nunca esquece.

Fica no setor Batcaverna e, com seus 8 metros, é uma boba via de IV grau. Boba com todo o respeito, claro: a via só vira boba depois que você manda ela algumas vezes…

Esse também é meu primeiro post no Blog de Escalada.

Como sou novata nesse universo íngreme e parede acima, pretendo compartilhar aqui minhas descobertas, meus anseios, erros e acertos. E tudo regado a muita fotografia, claro.

Fotos da rodada:

 

Mari é turismóloga, fotógrafa e jornalista, e atualmente arrisca os primeiros regletes na escalada. Nascida em Chapecó/SC mas morando em Duque de Caxias/RJ, é defensora dos animais, do ócio criativo e da simplicidade voluntária.

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