A história e evolução das sapatilhas de escalada ao longo do tempo – O Dossiê completo

Não importa o estilo de escalada: qualquer escalador, até mesmo quem pretende ser um dia, tem de ter uma sapatilha de escalada. Mesmo sendo tão essencial à prática do esporte, nenhum equipamento de escalada é assunto de tantas discussões acaloradas a respeito de qual modelo, marca e ajuste como é a sapatilha.

Que o equipamento é relativamente justo (variando a partir daí a tolerância ao desconforto do usuário) é indiscutível e fazer textos sobre o assunto é como chover no molhado.

sapatilhas de escalada

Por isso este artigo irá abordar apenas a história do equipamento e sua evolução de design, deixando para uma outra oportunidade um detalhamento de opções de escolha para a compra.

Portanto 0 texto abaixo irá contar a história do calçado que revolucionou o esporte e permitiu que a escalada, sobretudo a esportiva, evoluísse rapidamente, assim como foram as evoluções de construções existentes até o momento.

Pré-história

As sapatilhas de escalada em rocha, incluindo todos os seus modelos, é uma novidade “recente” na história do esporte. As aspas se justificam por estarmos na segunda década do século XXI, e que a data da invenção da sapatilha de escalada é da década de 1950. O termo recente é justificado apenas se comparado com a história do próprio esporte ao longo da vida humana na face da Terra.

Os primeiros calçados para escalada esportiva foram projetados pelo alpinista francês Pierre Allain. A ele é creditado não somente a invenção das sapatilhas de escalada como também dos sacos de dormir com pena de ganso, mosquetões, sistemas de segurança em rapel, etc. O alpinista morreu em 2000 aos 96 anos de idade.

Especula-se que desde os protótipos, até o produto final, a sapatilha de escalada foi criada na década de 1950, quase na mesma época que a escalada em boulder estava se desenvolvendo em Fontainebleau.

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O modelo, que foi popularmente chamado de “PA” (iniciais do nome do francês) por escaladores ingleses nos anos 1960, tinha a parte superior de couro bem fino (diferenciando das botas feitas à época) e uma sola de borracha flexível, macia e também bastante fina. Allain, apesar de ser bem habilidoso com ferragens, “apenas” idealizou e desenhou o modelo quando entregou nas mãos do sapateiro francês Eduard Bourdeneau, que residia em Paris.

Pela eficiência da sua performance o calçado se popularizou e foi evoluindo para modelos mais elaborados, especialmente pelos sapateiros europeus, os quais tinham expertise no artesanato de calçados sob encomenda.

Com o desenvolvimento das ligas de borrachas implementada pela Vibram uma nova liga de borracha super-aderente foi desenvolvida no final da década de 70, para no início da década seguinte começarem a serem vendidos comercialmente os primeiros modelos. Atualmente há dois grandes fabricantes de borrachas para sapatilhas de escalada.

À época a eficiência trazida pela nova liga de borracha fez com que os escaladores mais puristas declarassem fortemente que era antiético o uso de sapatilhas de escalada. Houve à época muita discussão que, com o tempo, acabou caindo no esquecimento dada a praticidade do calçado.

O primeiro modelo comercial foi vendido em 1982 e de lá para cá foram criados vários modelos por quase 40 marcas diferentes de sapatilhas de escalada (para ver a lista completa dos fabricantes leia neste link).

Evolução

Assim como aconteceram com os tênis de corrida, designers e engenheiros começaram a aperfeiçoar as sapatilhas de escalada. A partir destes estudos as principais marcas começaram a comercializar vários modelos que serviriam para uma modalidade específica da escalada, especialmente as marcas que tinham uma história própria ligada ao montanhismo e escalada como La Sportiva e Vibram.

Primeiro modelo de sapatilhas de escalada comercializado em 1982

Grande parte dos engenheiros e designers das marcas pesquisam basicamente sobre duas coisas:

DesignTalvez o ponto mais importante no rendimento de qualquer calçado. Dependendo do formato da sapatilha de escalada pode-se conseguir encadenar uma via ou não. Procurando sempre integrar visual, funcionalidade, biomecânica e anatomia em um modelo que agrade a uma comunidade específica de escaladores. Porém nem somente o visual como as curvaturas, côncavas e convexas, e o conforto dos pés (mesmo nos modelos apertados) localização das costuras são disciplinas intensamente pesquisadas pelas equipes de designers.

MateriaisNão somente a borracha faz a diferença em uma sapatilha de escalada como a sapatilha como um todo é fruto de pesquisa intensa das marcas. Costuras mais resistentes, materiais respiráveis, resistência à abrasão, flexibilidade, rigidez, capacidade de manter a forma por longo tempo, capacidade de ser ressolada e possibilidade de cores oferecidas são algumas das preocupações que se têm com os materiais de uma sapatilha. Engana-se que acredita que pesquisas são feitas somente no solado, pois atualmente esta parte e desenvolvida por um distribuidor externo da fábrica que se dedica a isso.

Ressola

Por se um produto que exige certa dose de tecnologia para o seu desenvolvimento e fabricação, uma sapatilha de escalada nem sempre é barata.

O custo relativamente alto de uma sapatilha criou o hábito de ressolar equipamento que é, de maneira bem simples, trocar a borracha e ponteira.

Atualmente todas as marcas importantes já produzem modelos que permita um grande número de ressolas, assim como certificam os ressoladores em cada país. Todas as marcas que não vislumbraram esta realidade acabaram por deixar de existir por sofrerem boicote natural do mercado.

Aqui na Revista Blog de Escalada há disponibilizado uma lista COMPLETA dos principais ressoladores de sapatilhas de escalada do Brasil (a lista é atualizada frequentemente o ressolador entre em contato). Cabe a cada usuário escolher qual o mais indicado ou mais próximo dentro da sua comodidade.

Os preços variam de acordo com a habilidade e demanda de cada profissional de ressola. Os profissionais credenciados pelas marcas fabricantes são os mais procurados. O preço destes profissionais é diferenciado dos outros por possuírem treinamento oficial dos produtores e, por este motivo, conhecem técnicas e materiais com mais profundidade.

Sapatilha apertada

A primeira dificuldade que qualquer escalador quando inicia no esporte é conviver com a estranheza da sapatilha de escalada, que inicialmente é classificada como “apertada”.

Alguns locais, erroneamente, aconselham aos iniciantes a experimentaram de 2 a 3 números maiores que o número que usualmente calçam. Este tipo de prática é errada e aplicada por locais sem conhecimento do esporte.

Uma sapatilha de escalada deve, primeiramente, permitir que os dedos dos pés não abram facilmente quando o escalador pisa uma agarra. Desta maneira devem estar juntos, e para isso não há aquele espaço entre os dedos e a ponta do tênis que todos estão acostumados. O motivo é bem simples: para caminhar é necessário esta folga, mas como estamos ESCALANDO, a lógica é diferente. Para correr faz sentido a folga entre os dedos e a ponta do tênis, para escalar não. Um teste que é feito é que, se você consegue andar normalmente com a sua sapatilha de escalada, é porque ela está grande.

Para escaladas mais técnicas, sobretudo em vias esportivas e boulders, uma sapatilha de escalada um ou dois números menores que o calçado que usa normalmente é o indicado. Para realizar vias tradicionais costuma-se usar modelos com o exato número que se calça no dia a dia. Para saber corretamente como escolher um número de sapatilha de escalada vendida no exterior, acesse a este link.

Modelos

No mercado existem vários fabricantes e, como não poderia ser diferente, cada um utiliza uma nomenclatura diferente para seus lançamentos. Mesmo assim podemos identificar a existência de três modelos básicos de sapatilhas de escalada: Cadarço, Velcro e Slipper.

Quem tem desejo de saber qual o melhor, uma afirmação antes: cada indivíduo é único e por isso nem sempre o que um amigo afirma a você em termos de modelo pode servir para você. O motivo é bem simples: o seu pé não e igual ao do seu amigo. Por isso quando for escolher um modelo experimento você o que melhor encaixa com a sua personalidade, formato e tamanho do seu pé. Há muitos “caciques” na escalada que afirmam categoricamente saber qual o melhor modelo para cada escalador, mas a verdade é que cada indivíduo sabe o que é melhor para si.

Cadarço: Os modelos de sapatilhas de escalada com cadarço possuem a grande vantagem de ajuste ao formato do pé. O equipamento fica apertado em todas as direções. Quem gosta de escalar vias tradicionais, que exigem sapatilhas não tão justas, preferem este tipo de modelo. Quem tem algum problema de sudorese nos pés, prefere este tipo de ajuste. A grande desvantagem deste modelo é que o tempo de calçar e tirar a sapatilha é grande. Desta maneira calçar e tirar sua sapatilha de escalada pode tomar muito tempo da sua escalada.

Velcro: Os modelos de sapatilhas de escalada com velcro são muito populares em escaladores que treinam frequentemente em academias de escalada. Por permitir rápido ajuste, além de ser mais fácil de calçar e tirar, é o modelo favorito de grande parte de escaladores, sejam eles esportivos ou tradicionais. A grande desvantagem fica por conta do desgaste das alças de velcro que, dependendo do fabricante, se rompem com facilidade.

Slipper: Os modelos de sapatilhas de escalada do tipo Slipper são muito populares em escaladores da modalidade de boulder. Uma observação antes: o termo Slipper está usado aqui no idioma original porque sua tradução literal “chinelo” ou “chinelinho” possui conotação negativa em português, designando jogadores que apenas ficam no departamento médico. Por serem muito fáceis de calçar e tirar se popularizaram, mas os principais modelos deixam a desejar no quesito ajuste. Porém grande parte dos modelos Slipper possuem curvatura acentuada, e desta maneira contornam o problema de ajuste. Por ser fácil de calçar e tirar permite ao escalador usar vários números abaixo de seu calçado.

Espessura do solado

Na escolha de uma sapatilha de escalada é muito importante o detalhe da espessura do solado. Um solado muito fino permite uma excelente precisão no momento de procurar micro-agarras. Porém por ser muito fino acaba gastando-se com facilidade requerendo uma ressola rapidamente.

Sapatilhas com solado grosso possuem durabilidade alta, mas uma precisão ruim. Por isso, os modelos para iniciantes no esporte a espessura do solado são acentuadas. Modelos de sapatilhas de escalada voltados para o uso da escalada em ginásios de escalada também possuem solado grosso, pois como é “apenas” para treinamento a longevidade de um modelo é fundamental.

Da mesma maneira que no automobilismo um carro possui vários tipos de maciez de pneus para uma prova, os escaladores também devem ter este mesmo raciocínio para sapatilhas de escalada. Por isso o tipo de borracha na escolha da sapatilha é fundamental.

No mercado internacional há duas empresas especializadas em borrachas para sapatilhas de escalada: Stealth e Vibram. As melhores marcas apostam nestas duas empresas. Mesmo estas empresas possuem linhas, cada qual com uma composição de borracha diferente, que requer do escalador conhecimento sobre o que cada uma significa. Alguma marca que aposte em um solado “genérico” muito provavelmente é um produto inferior.

Um artigo completo sobre as borrachas de uma sapatilha de escalada você lê neste link.

Curvatura

Os engenheiros e designers das grandes marcas de sapatilhas de escalada desenvolveram modelos mais sofisticados para cada modalidade. Nesta busca por performance escolheu mexer na curvatura da sapatilha para, desta maneira, otimizar o uso dos pés e potencializar a força aplicada em agarras cada vez menores.

Desta maneira há no mercado três tipos da curvatura da planta do solado: neutra, moderada e acentuada.

Curvatura neutra: A mesma curvatura de seu calçado é usada na confecção de uma sapatilha de escalada. Ao ser calçada, o usuário não sente muito desconforto no peito do pé. Este tipo de modelo é utilizado para quem gosta de escalar em aderência, fendas e off-width. Isso porque necessita do maior contato possível de toda a planta do pé com a rocha. Os modelos com esta curvatura não possuem a ponta da sapatilha muito estreita e, por isso, é considerada o mais confortável. A desvantagem deste modelo é que em vias positivas e negativas a sua precisão fica comprometida.

Curvatura moderada: Grande parte das sapatilhas de escalada possuem esta leve curvatura em arco côncavo no solado, para oferecer mais precisão às escaladas em vias verticais e negativas. A curvatura moderada tem uma explicação: servir tanto para escaladores em aderência quanto para escaladores que preferem vias verticais e negativas. Esta mesma moderação na curvatura permite que seja usada em ginásios de escalada que possui grande variação de inclinação nas vias para treinamento.

Curvatura acentuada: As sapatilhas de escalada com curvatura acentuada são as que mais exigem tolerância ao desconforto do usuário. O acentuado arco côncavo no solado, junto com uma ponta bem mais fina e proeminente, faz com que a eficiência em micro-agarras seja otimizado. Este modelo é o preferido por escaladores que estão buscando encadenar graus altos na escalada (acima de 8º brasileiro).

Simetria do dedão

Após várias pesquisas em biomecânica, os designers descobriram que fabricar uma sapatilha que o dedão deslocado de seu eixo longitudinal fazia a precisão ser aprimorada. Em palavras mais simples é fazer os pés terem uma curvatura tanto no solado quando “para dentro”. Desta maneira nasceram os modelos de “dedão assimétrico”.

As sapatilhas de escalada que possuem este tipo de deslocamento causam estranheza a quem não está acostumado e, como não poderia deixar de ser, exigem boa tolerância ao desconforto. Porém os modelos que possuem assimetria acentuada são mais caros dada a sua eficiência em relação a modelos mais simples.

Grande parte dos escaladores de alto desempenho utiliza este modelo para que seus projetos de escalada sejam realizados.

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

There are 2 comments

  1. Eric Nyssens

    Ola pessoal,
    Vai aqui uma dica pra alargar rapidamente uma sapatilha nova sem gasta-la e quase sem sofrimentos.
    Basta calça-la dentro d’agua e andar um pouco pra que o couro amoleça. Depois é so deixar secar na sombra lentamente. Claro, isto so é valido pra sapatilhas feitas de couro, os materiais sintéticos pouco cedem. A diferença antes e depois foi assustadora e a sapatilha agora nao cede mais.
    Boas escaladas!

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