A escalada e o profissional de Educação Física no Brasil: Contradição, diálogo e complementariedade

Olá, fui convidado para escrever sobre a polêmica que existe na escalada da atuação dos profissionais de Educação Física nesta área. Sei que é um tema difícil, mas depois de mais de 20 anos trabalhando com Educação Física e escalada, não poderia me furtar de opinar sobre o tema.

Para começar o assunto é necessário olhar para a história e a geografia. A cultura de montanha surgiu nos Alpes e de lá se espalhou para o mundo, porque a geografia local convida a ascensão e a Europa desde o renascimento é o epicentro cultural da humanidade.

A associação de 15 picos com mais de 4.000 metros, com o desejo de dominação europeia sobre o restante do mundo, tornou-os ávidos por alcançar as maiores altitudes. Assim, nasceu uma atividade esportiva com algumas peculiaridades:

  • Ela envolve os riscos e perigos da verticalidade.
  • Contém uma relação direta com a natureza selvagem em ambientes inóspitos.
  • Desperta o interesse pela auto superação.
  • Revela a necessidade de reconhecimento pelo esforço corporal que a prática exige.

Este conjunto de desafios levou os países com grandes montanhas à especialização na modalidade e ao aparecimento de grandes escaladores em diferentes tipos de escalada, alta montanha, cascade, tradicional, big wall, esportiva, boulder e indoor.

Foto: http://www.shane-messer.com/

Foto: http://www.shane-messer.com/

O grande número de pessoas praticando a escalada gerou a necessidade da organização do esporte, da mesma forma que qualquer outra modalidade, com a criação da UIAA (União Internacional das Associações Alpinas), da determinação de uma Ética para as atividades de montanha e com a formação específica de Guia de Montanha.

O Guia de Montanha é o nível mais elevado da formação e o curso se assemelha a outras formações profissionais, como as de graduação universitárias.

Observa-se que no mundo, esse tipo de formação se espalhou nos países que se organizaram em torno da cultura de montanha, pelas associações de montanhistas, às quais os guias se tornaram os líderes.

Nota-se que nos diferentes países a formação de guias tem na ética, na experiência prática e na segurança, aspectos comuns da formação dos futuros guias/instrutores, mas que há pontos diferentes, devido a regionalidade, como por exemplo, a formação de instrutores de ginásios de escalada indoor, guia de escalada em rocha, guia de escalada em gelo, guia de ski, etc, que são formações específicas dentro da formação maior de Guia de Montanha.

Muito bem, e o Brasil?

Nosso país por não conter picos com grande elevação demorou a se incorporar à cultura de montanha. Apesar de nossa história demonstrar que o Dedo de Deus foi conquistado em 1912, foi somente a partir da década de 1970, que começou a se desenvolver com mais efetividade a escalada em rocha no Rio de Janeiro, graças ao ambiente vertical privilegiado do centro urbano da cidade, que favorecia a conquista e prática da escalada tradicional e atraiu inclusive o interesse de escaladores estrangeiros.

No Brasil, a formação do escalador foi intuitiva, como nos primórdios na Europa, isto é, aqueles que adquiriam experiência na prática da escalada, transmitiam seu conhecimento aos iniciantes. Assim se legitimava que a experiência era a mais importante peça para a legitimação de quem ensinava.

O problema surgiu quando a escalada começou a se espalhar pelo Brasil com grande rapidez a partir do final do século XX, com muitos escaladores novos entrando no “mercado” de instrução de escalada, sem que houvesse nenhuma organização por parte das associações deste tipo de atividade profissional. Até hoje não há um credenciamento oficial, ou regulamentado que informe quem realmente pode ser considerado um instrutor de escalada brasileiro e a própria comunidade não tem claro, nem tem consenso de que forma deve ocorrer a formação.

Foto: http://www.independentsportsnews.com/

Foto: http://www.independentsportsnews.com/

Somente no início deste século no Rio de Janeiro, iniciou-se uma proposta de formação de guias de escalada pela AGUIPERJ. O modelo é semelhante ao internacional, com definição de idade mínima para se tornar profissional de escalada, tempo de experiência em escalada, e duração do curso de formação. Apenas, a falta de neve e gelo no país, torna sem sentido uma formação de guias para estas condições, Isto demonstra que o guia brasileiro deve se credenciar para a atuação em escalada em rocha, e que talvez para se tornar um guia de alta montanha deva complementar sua formação fora do país, pois demandará experiência em rotas no gelo.

De toda forma, nestes 15 anos desde a criação de AGUIPERJ formaram-se 12 guias, 19 instrutores de escalada e 56 condutores de caminhada, seguindo o modelo de formação internacional, adaptado para o contexto do Brasil. Observa-se que dos 87 credenciados em todas as atividades de montanha oferecidas pela AGUIPERJ, somente 3 não são do estado do Rio de Janeiro. Esse dado aponta para o fato de que a associação carioca não consegue influenciar o restante do país e que a escalada continua se espalhando por todos os estados em grande velocidade, independente do curso de formação de guias e instrutores. Mesmo no estado do Rio de Janeiro, há uma grande quantidade de pessoas oferecendo cursos e saídas de escalada sem ter nenhuma ligação com a AGUIPERJ.

Outro dado importante é que a AGUIPERJ tem as certificações em monitoria de técnicas verticais e instrução de escalada esportiva, que são formações que visam à atuação em trabalhos como rapel, tirolesa, arvorismo, e paredes de escalada indoor, mas que não há nenhuma pessoa certificada para esses cursos, talvez pela falta de interessados neles, ou porque a certificação de instrutor de escalada em rocha e guia de montanha seja mais interessante e abranja também conteúdos voltados a essas práticas.

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O problema está exatamente no fato destas atividades citadas oferecerem um número muito grande de possibilidades de trabalhos em clubes, parques, hotéis, academias, ginásios, eventos, etc. Estes serviços que requerem conhecimento de segurança em trabalhos verticais costumam contratar pessoas com menos experiência do que escaladores ou instrutores de escalada em rocha, pelo fato do ambiente ser mais controlado a as situações de risco ser mais previsível, portanto, cursos rápidos de formação em técnicas verticais acabam suprindo a necessidade dos contratantes.

Associo também o domínio de técnicas de resgate em altura, que bombeiros e outros militares desenvolveram a partir do conhecimento adquirido com escaladores nas décadas de 1980 e 1990 no país, e que por eles foi difundido em inúmeras atividades de altura como cursos, e saídas, para que muitas pessoas tenham aprendido os aspectos básicos de uso de equipamentos e cordas e tenham acreditado em seu potencial para trabalhar nas atividades que empresas oferecem ao público, como citado anteriormente.

Na realidade já não é possível distinguir com clareza nos dias de hoje quem realmente domina com segurança as atividades em altura devido à rápida difusão dessas práticas no território nacional e as críticas geralmente recaem no momento que os acidentes acontecem.

A escalada continua crescendo e se espalhando em todo o mundo, o Comitê Olímpico Internacional inclusive deverá apresentar a modalidade indoor como demonstração em Tóquio 2020. Basta procurar na internet em encontraremos mais de uma centena de cursos oferecidos por todo tipo de grupo ou de pessoas, com diversos níveis de experiência no esporte. A regulamentação, credenciamento e formação estão longe de uma uniformidade, não atingindo uma legitimidade na modalidade. Aqui surge um elemento especifico, pois a Educação Física é a formação profissional que atua diretamente com a prática esportiva e cabe a estes profissionais atuar diretamente com a escalada em termos de competições, lazer ou educação, sendo a abertura da escalada como esporte olímpico, mais um segmento destes profissionais.

Foto: http://sports.westway.org/

Foto: http://sports.westway.org/

Por falar em leis, há questões que devem ser compreendidas a este respeito.

Em todas as áreas de atuação do ser humano, a regulamentação profissional é um campo de disputas políticas e interesses econômicos. É quase uma unanimidade que um médico deve ter o diploma de medicina, ou ainda, que um advogado deva ter além da graduação em direito, a aprovação no exame da Ordem, para ter o respeito social na profissão e cumprir as determinações legais. A conquista desses valores foi sendo construída historicamente e tem respaldo na ciência, que legitima através do conhecimento rigoroso e sistematizado os conhecimentos que devem compor a formação dos profissionais.

Observo que as profissões se organizam através de entidades de classe, sindicatos, associações, conselhos, tais quais as associações de montanhistas e escaladores.

No Brasil o Ministério do Trabalho e Emprego disponibiliza uma tabela com Classificação Brasileira de Ocupações, isto é, aquelas que estão devidamente regulamentadas. Isto não significa que outras profissões não existam, mas que as que estão regulamentadas recebem respaldo jurídico para a atuação em âmbito nacional.

Aqui surge um embate que envolve a relação da escalada com a Educação Física e o Turismo. Por um, lado, estas profissões, regulamentadas oficialmente utilizam a escalada como conteúdo de suas ações, ou seja, na Educação Física a escalada pode ser usada em escolas com crianças e jovens principalmente em paredes construídas, ou adaptações de atividades em altura como rapel, tirolesa, falsa baiana, etc.

Os profissionais de Educação Física são pessoas que estudam o treinamento esportivo em suas especificidades biomecânicas, fisiológicas e psicológicas tendo conhecimento para preparar um escalador para competições, ou escalada em rocha, gelo, altitude, fornecendo subsídios para a prevenção de lesões e melhoria do rendimento.

Foto: http://bouldersuk.com/

Foto: http://bouldersuk.com/

No Turismo formam-se pessoas capazes de organizar atividades de venda, divulgação, operação e condução em que a escalada pode ser o atrativo direto da ação do profissional.

Isto não significa que estes profissionais estão prontos para todas as atividades relacionadas à escalada, mas que diferente de outras profissões eles podem adquirir contato com a modalidade ainda na faculdade.

Observa-se que o curso de formação de guias de escalada da AGUIPERJ contém dois módulos que tratam exatamente dos conhecimentos desenvolvidos nas áreas de Educação Física e Turismo.

No módulo 1, em tópicos especiais da prática da escalada são ministrados conhecimentos sobre: treinamento e ato motor dos pontos de vista psicológico, biomecânico e fisiológico, exatamente os conhecimentos desenvolvidos nos cursos de graduação em Educação Física.

No módulo 2, em tópicos especiais do ensino da escalada há os conteúdos de generalidades da pedagogia; relação pedagógica; o instrutor; a aprendizagem; e organização pedagógica da aprendizagem e no estágio de ensino, há seleção, organização e ensino dos conteúdos da disciplina de tópicos especiais da prática da escalada, além de avaliação do ensino desempenhado. Esta parte do programa de formação apresenta informações específicas da formação de professor, que é uma especificidade da formação de licenciatura em Educação Física.

O módulo 2 por sinal, tem por objetivo a relação entre o profissional de escalada e o cliente, fornecendo uma indicação de uma relação direta com o Turismo de Aventura, que segundo o Ministério do Turismo é um segmento que atua com todos os serviços de aventura incluindo a escalada. A ABETA, Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo de Turismo de Aventura, tem inclusive uma série de normas e certificações próprias para a atividade de escalada que deve ser praticada por todos os seus associados.

A formação da ABETA independe inclusive da formação acadêmica em Turismo e pode ser oferecida a qualquer pessoa. Mas antes que se critique esta formação especifica, vale lembrar que em locais distantes dos grandes centros capacitar pessoas para trabalhar com Turismo de Aventura pode ser uma saída para o êxodo rural e um possibilidade de trabalho muitas vezes única para quem vive, na Chapada Diamantina, Amazônia, Chapada dos Guimarães ou qualquer localidade que desenvolve o turismo e precisa de mão de obra local para acontecer.

Parte do conhecimento que o profissional da escalada deve adquirir está contida na formação em Educação Física e Turismo, isto gera uma proximidade entre estes profissionais e a escalada.

Foto: http://www.mcofs.org.uk/

Foto: http://www.mcofs.org.uk/

Todavia, isto não significa que os profissionais de Educação Física e Turismo estejam prontos para atuar com escalada, mesmo nos dias de hoje, em que algumas instituições colocam em suas grades curriculares disciplinas voltadas à aventura e a escalada. Nessas disciplinas há informações gerais e a aplicação prática costuma ser superficial, nada que prepare prontamente o profissional para ser um instrutor de escalada em rocha.

Isto porque os conhecimentos para atuar com a escalada, principalmente em rocha vão além do que as grades curriculares da graduação oferecem.

Por outro lado, profissionais de Educação Física que adquirem experiência em escalada, em geral, têm ótimas condições de atuar com instrutores e guias, porque já adquiriram conhecimentos e experiências que agregam muito ao profissional de escalada, como a didatica, os métodos de ensino, a fisiologia, a biomecânica, a psicologia, primeiros socorros, entre outros. O que o profissional de Educação Física precisa adquirir são as habilidades e capacidades relacionadas às técnicas verticais, ao resgate em áreas naturais, à ética em montanha, à história do montanhismo, etc.

Um ponto bastante importante, que gera discussão a respeito daqueles que ministram cursos de escalada em rocha é o nível que o guia/instrutor consegue escalar para ministrar cursos, ou levar pessoas para saídas de escalada. É neste ponto que há muitas críticas aos profissionais de Educação Física que pretendem atuar com a escalada. Por um lado, minimamente um escalador deveria escalar um grau a mais, do que a via em que ele vai levar seus alunos/clientes. Por outro, lembro que o curso do Clube Alpino Paulista (CAP) fazia questão de ter em seu grupo de instrutores o senhor Domingos Giobbi, mesmo que em idade avançada e sem escalar um 5º grau, ainda fazia parte do corpo docente do curso, pois sua experiência era uma vantagem para os futuros escaladores.

Outro exemplo é o escalador Bito Meyer, que talvez não fosse aprovado em exame médico para ser instrutor de nenhuma atividade esportiva, por causa da dificuldade em movimentar uma das pernas, mas mesmo assim, ainda escala mais do que muitos escaladores jovens e que treinam sempre em academias. O mesmo posso dizer de meu amigo Emerson Coutinho que após um acidente perdeu o movimento do pé, e ainda hoje conduz pessoas em rocha com maestria.

O que quero dizer é que a pouca capacidade de se movimentar não deve ser fator impeditivo para ser um profissional de escalada, mas que o profissional deve saber seu limite de atuação, e também que pouca mobilidade não significa falta de capacidade de escalar e nem de evoluir na escalada. Mas cada profissional deve procurar sua evolução física, técnica e mental, pois a escalada exige muito das capacidades motoras e dos aspectos psíquicos do indivíduo devido aos riscos inerentes à prática.

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Saliento que o desleixo com a segurança na escalada não se relaciona com profissionais de Educação Física, mas com qualquer escalador, seja profissional ou não. A questão está na responsabilidade em conhecer e aplicar os procedimentos de segurança. Mas ser responsável não é algo que se aprende somente em um curso.

A experiência prática em escalada não garantirá um bom instrutor, porém é condição para ensinar a escala, pela necessidade de estar no ambiente da natural com segurança. A AGUIPERJ sugere um número mínimo de vias escaladas para fazer o curso de instrutor/guia.

Aqui vale a pena olhar para a experiência dos mergulhadores que registram num log book (um livro de registros) todos os mergulhos realizados e um dive master (mergulhador mestre) deve assinar o livro para comprovar a quantidade de mergulhos realizados, talvez essa seja uma solução para comprovar no futuro quem realmente escalou tais vias.

Voltando à legislação há um problema que costuma assustar os escaladores, quando se trata de formação de guias e instrutores. A regulamentação da profissão de Educação Física ocorrida em 1998, após a criação do Conselho Federal de Educação Física (CONFEF) e de suas entidades regionais Conselhos Regionais de Educação Física (CREF), estabeleceu junto ao Ministério do Trabalho que toda a instrução, organização, capacitação, formação, prescrição, de atividade física ou esportiva é responsabilidade de um profissional graduado em Educação Física e credenciado ao CREF/CONFEF, como ocorre em qualquer outra profissão regulamentada.

É bom saber que o profissional de Educação Física lutou muito para essa conquista, pois como toda pessoa que estuda para atuar numa determinada área, ele mercê o respeito da sociedade. Há ainda muito a ser feito na Educação Física para melhorar a qualidade do serviço prestado, mas hoje somente o professor com formação pode atuar com musculação, ginástica, esporte, lutas, etc.

Isto representa um avanço, porque há 30 anos praticamente qualquer um podia “ensinar” alguém a nadar, podia “treinar” um atleta, ou “prescrever” um exercício apenas com a experiência que tinha adquirido praticando. O maior problema dos “práticos” atuarem com o exercício físico, está no empirismo, na tentativa e erro, no olhar equivocado de alguém que não estudou sobre o corpo humano instruindo aquele que está querendo aprender, na falta de estratégias de ensino que levem em conta o crescimento e desenvolvimento da pessoa, entre outros fatores que o professor de Educação Física desenvolve em uma formação com base científica.

Na realidade o CREF/CONFEF pode autuar qualquer pessoa que esteja trabalhando com o exercício físico, ou esporte seja no âmbito do lazer, da competição ou da formação pessoal, caso a pessoa não seja graduado e credenciado. A realidade mostra que ainda não existe uma fiscalização sobre a escalada em rocha, talvez pela dificuldade de acesso aos locais de escalada, talvez pela necessidade do Conselho de fiscalizar as áreas de musculação, ginástica, esportes olímpicos, antes de qualquer outra coisa. Mas é prerrogativa do Conselho fazer isso, o que já está acontecendo com o surf em alguns lugares e poderá chegar à escalada, principalmente nos centros urbanos.

No caso da escalada indoor, a facilidade de acesso às paredes e a maior relação dos ginásios e academias com o ambiente de fiscalização natural do CREF/CONFEF, pode fazer bater a porta de um estabelecimento como este um fiscal que terá o poder legal de autuar e que pode caso seja necessário ter o apoio do reforço policial para cumprir sua função.

Em outras áreas como as lutas, a dança, ou algumas formas de exercícios contemporâneos, há disputas judiciais em andamento, mas a Lei Federal que regulamentou a função de profissional de Educação Física tem prevalecido, pois do contrário não haveria isonomia, em relação a outras profissões e qualquer um poderia atuar como médico, engenheiro, dentista, juiz, etc.

Para finalizar este artigo vejo que há contradições a serem superadas, e, portanto o caminho do diálogo me parece ser a melhor solução.

Tenho algumas propostas:

1 – O fortalecimento das organizações que cuidam da escalada (Federações, Associações, Clubes) é uma poderosa arma na luta política para o reconhecimento da profissão de instrutor/guia de escalada. Caso a proposta da AGUIPERJ cresça e evolua para outros estados, passaria a ser função específica das associações formarem os futuros profissionais do esporte. Porém o maior entrave está dentro dos grupos escaladores, pois muitos já exercem a função há muito tempo e terão que passar por cursos de formação para se credenciar e aumentar a força da escalada em âmbito nacional, mas estes devem dar um passo para trás, no sentido de sua reciclagem, mesmo que seja para contribuir com sua experiência com aqueles que darão a formação.

2 – A Educação Física pode ser uma grande aliada da escalada, em primeiro lugar porque há muito conhecimento científico na área que pode ajudar na organização da modalidade e na formação de escaladores e em segundo lugar porque os professores podem ser os primeiros incentivadores nas escolas da escalada para as crianças, o que despertaria o interesse de um número considerável de futuros escaladores e de maior força econômica para sustentar o esporte. Buscar o diálogo entre Conselho e Associações da escalada pode inclusive gerar cursos de formação com apoio da Universidade e a criação de paredes de escalada nas Faculdades de Educação Física como já ocorre na UNICAMP, UNINOVE, UEM e em outras instituições. Outra parceria interessante está no credenciamento de monitores de técnicas verticais e de escalada esportiva indoor das Associações de escalada que poderiam ser cursos oferecidos junto às Faculdades de Educação Física.

3 – A formação do guia de escalada poderia ser feita num curso de especialização universitária (lato sensu), pois a carga horária é semelhante, haveria a chancela de uma instituição reconhecida pelo Ministério da Educação, existem diversos professores universitários, mestres e doutores, que são escaladores e poderiam participar dessa formação, qualquer pessoa com graduação poderia ser um especialista em escalada, continuaria sendo necessário comprovar a experiência em escalada e a idade mínima de 21 anos, como estabelecida pela AGUIPERJ, é a idade aproximada da maioria dos graduados em diversos cursos. O único entrave seria estar graduado em algum curso, o que seria uma experiência mínima de formação que auxilia na responsabilidade que se exige de um profissional de escalada, já que a graduação forma sempre um profissional.

Concluo afirmando que a Educação Física pode contribuir e complementar a escalada como esporte trazendo mais benefícios à modalidade e sua organização no país. Não vejo que a Educação Física vá substituir o profissional experiente de escalada, mas juntos podem ir ainda mais longe.

Lembro de alguns escaladores que são profissionais de Educação Física e contribuem cada um a sua maneira para o desenvolvimento do esporte, como:

  • Marcello Vazoller um dos principais instrutores de técnicas verticais para trabalho em altura do país
  • Helmut Becker que elevou o nível técnico da escalada esportiva com o primeiro 10c escalado por um brasileiro
  • José Luis Pauletto recordista do Monte Aconcágua em velocidade de ascensão
  • Denis Prado que já mostrou a escalada para mais de 1000 crianças em escolas de São Paulo
  • Felipe Edney instrutor de escalada formado pela AGUIPERJ, que pela formação em Educação Física desenvolve a iniciação da escalada para crianças no Rio de Janeiro com propriedade
  • Romulo Bertuzzi, doutor pela USP escalador e principal autoridade quando se fala do treinamento da escalada esportiva no Brasil
  • Orlei Resende Junior professor de Educação Física que em 1999 já mostrava como montar paredes de escalada e inserir essa atividade em escolas
  • Carlos Santalena primeiro professor de Educação Física brasileiro no topo do Everest
  • José Ricardo Auricchio que procura criar soluções para que deficientes pratiquem a escalada indoor e em rocha
  • Rafael Medeiros instrutor de escalada no parque público de esportes radicais de São Bernardo do Campo
  • Arthur Gáspari (Xitão) que escala V12 e ainda é incansável pesquisador do treinamento na escalada

Cris Costa que defendeu mestrado em Educação Física em 2004, intitulado “Formação profissional no esporte escalada” que utilizei como fonte de informação neste artigo, entre tantos outros profissionais de Educação Física que colaboram com o esporte e podem ajudar a melhorar ainda mais a modalidade no Brasil.

Dimitri Wu é Escalador, professor do curso de Educação Física da UNINOVE-SP, doutorando em Educação, autor dos livros Escalada e Pedagogia da Aventura

There are 4 comments

  1. Felipe Edney

    Bom texto Dimitri!
    Só para atualizar, em 2015 a CBME reconheceu a AGUIPERJ com principal instituição qualificadora e certificadora de profissionais na área de Escalada em Rocha e Montanha, neste ano devemos quase dobrar o corpo de guias e instrutores! Grande abraço e boas escaladas!

  2. Vinicius Viegas

    Caro Dimitri, vale lembrar que no ano passado o Ministério do Trabalho e Emprego atualizou na CBO a profissão 5115-05 (Condutor de Turismo de Aventura).

    De acordo com a CBO a descrição da profissão é:
    “Conduzem clientes/pessoas nas atividades de turismo pesca e de aventura, tais como: rafting, escalada, trilha, balonismo, etc, operando veículos e equipamentos diversos, descrevendo características físicas, ambientais e históricas do local onde atuam. Organizam, selecionam e preparam materiais e equipamentos necessários à realização das atividades turísticas. Orientam os clientes/pessoas nos procedimentos das atividades turísticas que irão realizar, nas questões de segurança e cuidados com meio ambiente. Dão suporte a clientes/pessoas auxiliando-as, quando necessário. Auxiliam nas vendas divulgando outros tipos de atividades durante a realização dos passeios. Mantém os equipamentos em condições de uso lavando, limpando, guardando e realizando pequenos reparos.”

    Os cursos para a formação desse profissional ainda não foram criados mas já existe uma movimentação pelo Ministério da Educação para que isso ocorra o mais rápido possível. Estamos vivenciando um caminho de mudanças, onde ficará bem definido o que é Turismo e o que é Esporte, e quem poderá atuar no que.

    Deixo o convite para um conversa e um bate-papo sobre o assunto.

    Grande abraço.
    Vinicius Viegas

  3. Orlei Jr.

    Belo texto. “O maior problema dos práticos atuarem com o exercício físico, está no empirismo, na tentativa e erro, no olhar equivocado de alguém que não estudou sobre o corpo humano instruindo aquele que está querendo aprender, na falta de estratégias de ensino que levem em conta o crescimento e desenvolvimento da pessoa, entre outros fatores” esse parágrafo resumiu muito bem o que vemos quase todos os finais de semanas. E obrigado por lembrar de mim no dia em que comemoro 21 anos de trabalho responsável, com forte base ética e, cada vez mais, preocupado em mínimizar os impactos.

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