A delicada e obrigatória relação com proprietários de locais de escalada em propriedades privadas

Tomemos um personagem fictício, o qual vou batizá-lo de Juanjo. Juanjo viu um lugar de escalada que tinha grande potencial. Depois de uma caminhada pelo campo, junto de uma subida a um morro, era possível chegar a um dos lugares que, segundo a sua avaliação, podia ser um dos melhores setores do país na região que mora. Mas terrivelmente, para sua surpresa, aparece um homem com uma escopeta nas mãos e decidido a disparar. Este personagem, que parece ter saído do nada, gritava para que saíssem da propriedade imediatamente, ou faria uso da força.

Juanjo, sem perguntar e nem saber, tinha entrado a um local privado e atravessado sem permissão. O dono o viu desde longe e, por isso, decidiu pegar as armas para proteger sua propriedade, fazendo valer seu direito de proprietário, com reais intenções de matar quem quer seja e necessitasse. Nosso personagem procurou acalmá-lo, explicando que somente queria fazer uso das rochas para escalar.

Mas sua tentativa somente fazia com que o homem ficasse mais nervoso e apontando a arma mais decidido ainda em dispará-la. Juanjo não pensou duas vezes e preferiu fugir. Horas mais tarde, já a salvo, se encontrava nos vilarejos próximos com locais, quando explicaram a ele que o dono daquelas terras era muito violento. Ao que parece já havia usado a arma com as pessoas que tentaram passar sem permissão.

O descrito não é ficção, passou próximo de uma localidade no Chile e, por isso, ninguém nunca mais voltou a passar nem foi visto tentando escalar escondido deste paraíso perdido. Aqui não há nenhum motivo para discutir, pois o dono fez uso da força necessária que lhe é garantida por lei. Se o proprietário diz que ninguém entra, significa que NINGUÉM ENTRA.

A situação com donos de propriedades privadas é uma realidade e é importante assumir que existe. De nada adianta discussões dialéticas (debate onde há ideias diferente, onde um posicionamento é defendido e contradito logo depois), nem falsos valores éticos que mudam de acordo com o vento. Aqui não estamos na discussão de ir à montanha ou oceano. A grande quantidade de locais de escalada esportiva não está precisamente na montanha.

Local de Escalada chileno Chacabuco – Foto: http://www.gabrieljaque.cl

Quase todos os lugares são parte de propriedade de alguma pessoa. Cito exemplo no Chile:

Desta maneira eu poderia seguir este artigo somente mencionando praticante locais do Chile. Mas para que fique claro ao leitor, tenha em mente no Brasil há também lugares que ficam em propriedades privadas (mesmo fazendo parte de alguma APA).

Lapa do Seu Antão | Foto: Felipe Belissário

Obviamente que o proprietário de muitos destes lugares está, às vezes, ausente ou até mesmo parece que não existe. O melhor exemplo é Las Chilcas. Mas em outros lugares está presente e, por isso, sente muito incômodo que outras pessoas entrem em sua propriedade. Estou me referindo às PESSOAS que entram, pois muitos se proclamam escaladores, como se isso os desse um status diferente, como uma aura de intocável.

O impacto de pessoas que praticam escalada é conhecido por todos, infelizmente, por isso lamentavelmente cada vez mais há um fator mais negativo que positivo.

O preço da escalada

Tive sorte de conhecer muitos lugares antes que existisse algo de escalada. O local de escalada no Chile conhecido como El Arrayan (bosque mágico) era apenas um pasto de cavalos e pessoas que faziam trekking. Nada mais que isso.

Não havia uma só pegada de escalador nem lixo ou barulho. Nada de nada. A escalada foi uma tragédia para este lugar. Este é o preço que temos de pagar para escalar? Bem, este é um tema para um outro artigo.

Para este o que vou abordar é sobre os donos dos locais de escalada, que sabem de tudo isso que foi descrito. Mesmo que não saibam, com o tempo irão sentir na pele o preço muito alto que pagarão ou irão pagar sem mesmo ter pedido. Em Valle de los Cóndores (um dos melhores lugares de escalada da América do Sul), o proprietário do outro lado do rio tem este terreno para três coisas:

  • Criar ovelhas (que já não são vistas)
  • Pasto para o gado no verão (que são vistas todo o ano)
  • Cuidar do lugar mantendo-o limpo e livre da interferência humana

Ele possui uma casa, a qual é seu tesouro no lugar. Longe dos locais de escalada. Não é um tesouro largado. Este proprietário viu muitos anos antes da escalada, pescadores fazerem um lixão na margem do rio que lhe pertencia.

Por isso fica bem claro o tamanho de seu medo com a chegada de escaladores. Imaginou, claro, o que passaria com seu gado e, pior, com o lugar e o lixo. O proprietário tinha, e ainda tem, sérios temores de que estas pessoas invadam seu lugar para transformá-lo em um desastre.

Política

Alguém pode até demonizar os proprietários e donos de locais de escalada, mas aquele que sai com uma escopeta para cuidar de sua propriedade não é apenas um personagem de uma história de terror ou mito urbano.

Muitos dos proprietários destes lugares fazem vista grossa deixando passar escaladores e pessoas. Em muitos lugares há “líderes” entre os escaladores que tomaram precauções, antes de algum incidente, e estão tentando falar com os donos das propriedades para conseguir um acesso livre aos locais de escalada para a comunidade. Alguns poucos conseguiram algo para que muitos, mas muitos mesmo, escaladores possam fazer uso destes lugares.

No local de escalada chileno Chacabuco, antes de equipar foi combinado com o proprietário, Jaime Ventura as condições e foi aprendida uma valiosa lição com um dono de terras privadas. Jaime afirmou que a possibilidade de impedir a entrada era muito difícil e custosa, mas o importante era chegar a um acordo. No acordo ficaram acertadas coisas muito simples: não deixar lixo e não estragar cercas (o que deixa o gado fugir) pois o local era usado como criadouro de vacas e respeitar a natureza e a fauna. Qual a razão para transformar um proprietário amável em um monstro disposto a matar alguém para defender um terreno?

Mas, com o passar dos anos, foi necessário novamente conversar com Jaime porque foi detectado que escaladores estavam deixando lixo, algumas pessoas haviam sido prepotentes com os trabalhadores do local (sentindo-se donos ou representante deles, o que obviamente não são) e que haviam cortado algumas cercas. Ou seja: escaladores estavam desrespeitando as normas de convivência, boas maneiras e respeito!

Um outro exemplo: Em El Arrayan é o centro do furacão, pois faz pouco tempo foi fechado o acesso. Os donos do lugar por onde passam os escaladores estão cansados de mau comportamento, prepotências e “direitos” que não existem. Estas pessoas passam pelo quintal das pessoas que vivem aí. Pense você como se sentiria se todos os dias há pessoas passando pela sua casa e, mais ainda, te olhando com desprezo e soberba. Sim, aqui neste exemplo nem tem como analisar. Os que vivem aí fizeram vista grossa por anos em troca de receber um tratamento ruim, desrespeitoso e prepotente. Isso foi de poucos, é verdade, mas basta apenas uma pessoa, de um total de vinte, para que seja sentido algo com intensidade.

O escalador chileno Lucho Bikner fez campanhas incríveis para cuidar de El Arrayan, limpando-o e conversando muito para que existisse uma harmonia com as pessoas que vivem aí. Suas conquistas foram jogadas no lixo por alguns poucos, mas que fazem um barulho imenso. Nunca da boca de Lucho saiu uma só bronca ou algum “faça o que queiram”. Sempre, até o momento, com bons modos e mostrando uma cara amigável e respeitosa do escalador. Um caminho que deveria ser seguido por todos.

Mas pessoas dispostas a serem problema sempre vão existir e não é um “poderia ser”, é uma realidade conhecida por nomes e sobrenomes. Somente para exemplificar, nas redes sociais apareceram sociopatas que combinam de ir até El Arrayan (ou qualquer outro lugar), entrando como se estivesse nas suas próprias casas. Com isso irritam os proprietários que, até o momento, fizeram vista grossa. Este tipo de “pessoas escaladoras” são precisamente a razão da má convivência dos proprietários e do fechamento dos locais de escalada.

Portanto, aqui existem duas alternativas: ser educado e se dar bem com os proprietários ou comprar o lugar. O que acredita que faria este tipo de parasitas escaladores que pregam pela anarquia se comprarem o lugar? Seguramente o fechariam para o público e, por paradoxo do destino, também falariam mal da massificação da escalada e que escaladores que “não são de verdade” não seguem suas ideias.

O que fazer?

A situação é delicada, pois é um trabalho muito ingrato e difícil chegar a convencer alguns donos ranzinzas (falo com a experiência de ter feito várias vezes), mesmo para alguns destes escaladores que procuram fazer as coisas corretas foram ameaçados de morte. Por isso a única opção que existe e que se pode fazer para continuar escalando em lugares de escaladas em propriedades privadas é ser educado sempre.

Não fique nenhuma dúvida de que os grandes culpados do fechamento de locais de escalada são as pessoas que vão escalar. Portanto é da responsabilidade INDIVIDUAL dos escaladores que as coisas fiquem bem. Pois é importante saber que por algumas poucas pessoas, de boa vontade, não tenham perdido seu tempo para que não fosse perdido seu lugar de escalada por algumas poucas pessoas que não tem a menor noção de ser “gente de bem”.

Tradução autorizada de: http://rocanbolt.com

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Gonzo Rocanbolt é chileno, médico, escalador e indiscutivelmente uns dos mais completos autores de artigos sobre treinamento de escaladores existentes no mundo. Respeitado em todo o mundo é o organizador do Simpósio de Medicina de Montanha no Chile e palestrante de eventos de escalada no Chile, Argentina e Espanha

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