A comprovação definitiva de Ciénaga Grande (6.075 m) : o “novo” 6 mil na Cordilheira dos Andes

Em abril desse ano realizamos uma travessia em alta montanha de grande complexidade, percorrendo 120 km em 11 dias unindo os nevados de Palermo e de Cachi pela longa aresta que conforma esse maciço montanhoso. É um percurso complexo pelo isolamento da região, pela dificuldade de acesso ao setor norte do Nevado de Palermo e pela extrema altitude da travessia, que durante 6 dias se mantém em uma cota entre os 5500 m e os 6000 m, atingindo seu ponto mais alto no cume Libertador (6380 m), onde é preciso chegar com a mochila cargueira. Nem no Aconcágua é necessário ir tão alto com todo o peso de uma cargueira, só no Himalaia havia feito algo assim!

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Talvez por isso somente duas outras travessias haviam sido realizadas percorrendo-se a extensão do Cordón Palermo-Cachi, uma em 2005 e a outra em 2013. A nossa travessia foi a terceira que se tem registro “encadenando” os cumes dos nevados de Cachi e Palermo e a segunda a completar o trecho de La Poma até Las Pailas pelo alto do maciço. O Ciénaga Grande (6075 m) é uma montanha pouco conhecida e, até então, era considerada como um cume secundário do Nevado de Palermo. É o cume mais setentrional desse nevado que, no sentido norte-sul, possui outros 3 cumes acima de 6 mil metros: Guanacos (6030 m), Morro del Quemado (6015 m) e Palermo (6150 m), sendo esse último o cume principal.

Durante a travessia, após descer do cume do Guanacos e seguir pela aresta em direção ao Morro del Quemado, percebi que se tratava de uma longa descida e desconfiei que esse desnível, talvez, pudesse fazer do Ciénaga Grande um cume independente. Já era o final do dia, o vento soprava forte e estava praticamente sem água. Minha maior prioridade naquele momento era encontrar algum lugar para acampar onde houvesse gelo ou neve e me despreocupei do altímetro. Chegando no colo entre o Guanacos e o Morro del Quemado, verifiquei que se tratava de um passo natural que dava acesso à região da Puna, à oeste. Desci nessa direção, para ver se encontrava água na estreita quebrada mais abaixo, mas não tive sucesso. Parei de descer, armei a barraca como pude na forte ventania e só após estar abrigado me lembrei de verificar a altitude: estava a 5588 m. Não sabia o quanto havia descido, por isso não tinha certeza a que altura estava o colo entre o Guanacos e o Morro del Quemado.

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No dia seguinte tive que subir novamente em direção ao colo e percebi que o desnível até ali era de uns 80 metros. Registrei tudo em meu GPS, guardando os dados para uma análise posterior. Agora, finalmente, tive tempo para revisar com calma as informações armazenadas, submetendo o tracklog a vários softwares de análise e verificando a posição do colo entre o Guanacos e o Morro del Salado no Google Earth. Tal ponto se encontra a uma altitude de 5660 m, ou seja, 415 m abaixo do cume do Ciénaga Grande, considerando-se a altitude mais aceita para essa montanha, que é de 6075 m. Usando-se o critério de proeminência topográfica de 300 m que define um cume independente (ver o artigo sobre Proeminência Topográfica no Wikipedia), tal desnível é suficiente para caracterizar o Ciénaga Grande como uma montanha autônoma. Segundo tal critério, “a proeminência de um cume é o desnível entre esse cume e a mais baixa curva de nível circundante que o inclua a ele, mas a nenhum ponto mais alto. Se a proeminência do cume é de P metros, para ir do cume para terreno mais elevado, ter-se-á de descer pelo menos P metros, qualquer que seja o trajeto escolhido”. Ou seja, para ir do cume do Ciénaga Grande ao cume do Palermo, é preciso descer pelo menos 415 m, qualquer que seja o trajeto escolhido.

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Dessa forma, o Guanacos seria, na verdade, um cume secundário do Ciénaga Grande, enquanto o Morro del Quemado seria um cume secundário do Nevado de Palermo, definindo-se duas montanhas separadas por um colo cujo desnível em relação ao cume principal mais baixo (o do Ciénaga Grande), gira em torno de 400 m. Como poucos montanhistas passaram pela aresta do Cordón Palermo-Cachi, tal fato passou despercebido até o momento.

Obviamente, medições mais precisas são necessárias para se chegar à altitude exata do Ciénaga Grande e do Nevado de Palermo, bem como do colo existente entre o Guanacos e o Morro del Quemado. Porém, a margem de 115 m existente entre o critério de proeminência de 300 m e o desnível de 415 m é grande o suficiente para manter alta a probabilidade de que o Ciénaga Grande seja realmente uma montanha independente, devendo ser incluída na lista dos “6 mil” andinos. Por exemplo, nossa medição para o cume do Ciénaga Grande apontou para uma altitude de 6045 m, 30 metros a menos que a altitude reconhecida atualmente. Assim mesmo, a proeminência topográfica ficaria em 385 m, ainda atendendo com sobra o critério de 300 m.

Os gráficos abaixo representam o perfil de elevação entre os cumes Palermo (a esquerda) e Ciénaga Grande (a direita), encontrando-se o colo ao centro. Segundo nossa medição, o cume do Palermo teria 6138 m. As duas elevações intermediárias correspondem aos cumes do Morro del Quemado e do Guanacos, da esquerda para a direita.

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A foto a seguir foi tomada em um ângulo inusitado, a quase 6 mil metros de altitude, permitindo distinguir nitidamente as 3 montanhas independentes do Cordón Palermo-Cachi: Ciénaga Grande, em primeiro plano, Palermo, no centro, e Libertador (cume principal do Nevado de Cachi), ao fundo. A noção de proximidade é apenas aparente, são necessários 4 dias para se percorrer esses 3 cumes com uma mochila cargueira nas costas.

Na foto abaixo, uma visão do cume do Ciénaga Grande, com a Puna de Atacama ao fundo, à esquerda.

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Nessa representação obtida no Google Earth se vê o colo abaixo do Morro del Quemado e o passo entre os vales a leste e a Puna de Atacama, a oeste, que aparece com a coloração avermelhada.

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O gráfico abaixo corresponde ao perfil de elevação completo da travessia que realizamos. Os dois primeiros topos mais baixos à esquerda correspondem aos dois passos de montanha que cruzamos para alcançar o cânion do Rio Salado, representado pelo primeiro fundo no gráfico, cuja quebrada nos levou até o norte do Nevado de Palermo. A continuação do gráfico é uma representação do perfil do Cordón Palermo-Cachi, de norte a sul, permitindo vislumbrar suas 3 montanhas independentes. A primeira, à esquerda, é o Ciénaga Grande, com seu cume principal e seu cume secundário, o Guanacos. Em seguida vem o colo que a separa da montanha seguinte, o Palermo, com seu cume secundário mais à esquerda, o Morro del Quemado, e logo o cume principal. Depois um desnível mais acentuado separando o Nevado de Palermo do Nevado de Cachi, com seu cume principal, o Libertador, sobressaindo-se.

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A seguir uma visão do Cordón Palermo-Cachi, extraída do Google Earth, destacando o trecho entre o Ciénaga Grande e o Palermo.

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E uma visão geral da região do Cordón Palermo-Cachi, também obtida no Google Earh, com a representação da travessia realizada.

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Sobre o Autor

Marcelo Delvaux

Marcelo Delvaux

Guia profissional de montanha, com título de “Guía Superior de Montaña” obtido na EPGAMT. Guia de montanha associado à AAGM e à AAGPM. Guia de montanha credenciado no Parque Provincial Aconcagua. Sócio da empresa SummIT – Gestão de Projetos e Desenvolvimento Humano. Além de liderar expedições de escalada e trekking em alta montanha, trabalha com treinamento e consultoria nas áreas de gestão, liderança, motivação e inovação.
Pratica escalada em rocha desde a década de 1990 e alta montanha desde o início dos anos 2000, tendo realizado mais de 80 ascensões nos Andes e no Himalaia

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