30 Idéias para apertar o seu passo vertical! (Parte 1)

Se você já foi pros Alpes, com certeza já passou por algumas situações interessantes que te deixaram com a seguinte pergunta na cabeça, “como esses malditos franceses são tão rápidos?”. Aquele pontinho que você casualmente observava lá embaixo, está de repente na sua parada, pedindo espaço.

Ele vai passando pela suas cordas, fumando um cigarro enquanto da segurança, e você apenas sabe que em um minuto ou dois ele estará te ultrapassando, sem muito mais do que um ‘s’il vous plait’… Déjà vu?

Após terminarmos nossa última via no Mont Blanc du Tacul, passei um bom tempo revisando a subida em minha cabeça, tentando descobrir porque levamos quase o dobro do tempo estimado pelo guidebook.

Sim, nós terminamos a via, sim, nós poderíamos ter feito algo mais difícil, mas… isso iria provavelmente levaria ainda mais tempo, o que não é aceitável. Hora de voltar para a mesa de projetos, estudar e reviser o be-a-bá.

Esse texto partiu de um e-mail que pretendia enviar para meu parceiro, com alguns pontos que eu achava importante serem discutidos de forma a tornarmo-nos mais eficientes e rápidos. A mensagem cresceu a ponto de virar um artigo, que eu sempre reviso como forma de me lembrar os conceitos básicos, que somem da nossa cabeça na hora H.

Mesmo escaladores experientes, quando nos Alpes pela primeira vez, podem ter dificuldade em ajustar-se as técnicas de gerenciamento de risco do lugar. As técnicas para mover-se eficientemente de forma rápida e segura não surgem da noite pro dia, e aqui eu procuro apresentar algumas idéias e dicas que podem ajudar nesse processo.

Neguinho gosta de criticar então é bom explicar: eu não sou um escalador prodígio, sequer me considero escalador. Ainda subo na velocidade de um caramujo, mas essas dicas me ajudaram a poupar algumas horas de frio e sofrimento. Muitas desses conceitos são específicos para escalada alpina, mas também podem ser aplicados a escalada esportiva e tradicional.

O básico: lógica e planejamento

1. “O seguro morreu de velho”

Antes de mais nada é importante salientar que existem vários benefícios em escalar-se rápido, mas não devemos sacrificar segurança por velocidade. Escalando rápido, jamais comprometa a cadeia básica de segurança, ou faça manobras arriscadas para ganhar tempo. A montanha sempre estará lá, fazer coisas estúpidas para ganhar tempo apenas compromete a sua vida e a de seu parceiro.

2. “Treine duro, lute mole”: condicionamento e aclimatação

Desnecessário dizer que condicionamento e aclimatação são essenciais para mover-se eficientemente na montanha. Você deve incluir ciclos específicos de treinamento para cardio e para a atividade da escalada em si.

O treinamento pode continuar durante a viagem com a inclusão de longas caminhadas até os abrigos, o que também ajuda a economizar uma grana. Uma vez em forma, pode ser interessante utilizar os teleféricos como uma forma de chegar na base da via sentindo-se fresco e pronto, com a alma culpada, mas o corpo inteiro.

Aclimatação é um assunto complexo que se abordado corretamente irá ajudar a reduzir a perda de tempo valioso sentindo-se mal dentro da barraca. Um incremento gradual de altitude no começo de qualquer viagem, com algumas noites dormindo alto, irão ajudar muito. Lembre-se que mesmo sob modestas elevações um time não aclimatado pode ser bastante prejudicado em termos de rendimento/velocidade.

3. “Saber é poder”

Fazer o dever de casa é essencial. Junte a maior quantidade possível de informações sobre seu objetivo, das mais variadas fontes. Muitos guidebooks estão desatualizados por conta da intensa atividade glacial/avalanches que alteram o estado das rotas e aproximações.

Guias locais, guardas do abrigos, revistas especializadas, outros escaladores, e escritórios dos guias locais são ótimas fontes de informação. Hoje em dia muito desses dados é disponibilizado em relatórios on-line, e fóruns de discussão, mas a qualidade de tais posts deve ser sempre validada. De forma geral, você pode confiar em sites oficiais e relatórios escritos por guias, além de fóruns de discussão locais (principalmente Suiça, França e Reino Unido). Com confiança de que você tem todo o conhecimento sobre o desafio a frente, será mais fácil decidir quais equipamentos levar, antecipar a via, suas condições, e assim mover-se mais rápido.

Pense cuidadosamente sobre sua logística e tenha um plano para toda as eventuais possibilidades. Considere tempo, aproximação, descida, o que levar, etc. Faça planos reais, apenas escalando dentro de seus limites técnicos/físico você será capaz de mover-se de forma eficiente e segura. O oposto também se aplica, ser ultra conservador e cauteloso, levando tralha para bivaque por exemplo, irá quase seguramente resultar em você utilizá-la. Quanto mais difícil e comprometido o objetivo, mais tênue a linha do que é de fato essencial, e melhor julgamento e experiência se fazem necessários.

4. Escale esperto

Jogue com as habilidades do seu time. Planeje a frente e tenha certeza de que você irá guiar o tipo de terreno que melhor lhe convém, assim como seu parceiro. Isso é especialmente importante em terreno mixto, que pode envolver diversos estilos diferentes de escalada. Maximizando as habilidades do grupo o movimento fica mais fluído.

5. Leve é bom, leve é rápido

Além dos betas e topos, outra maravilha da vida moderna é o fato dos equipamentos estarem cada vez mais leves. Normalmente, leve é certo, você não pode escalar a 100km/h com mega kilos de tralha, e há uma grande satisfação em aproximações rápidas e movimentação eficiente, porém é preciso decidir o quão leve é leve, e quão leve é suficiente.

Ir light requer competência em todas as áreas da escalada/montanhismo. Se você não for totalmente competente e em forma, estará comprometendo sua segurança se não carregar equipamentos e suprimentos suficientes. Quando se embarca com o mínimo, a margem de erro é diminuída gigantemente e você talvez se veja em uma situação em que precise chegar ao cume de qualquer jeito.

O que levar

Peso pode ser poupado em todas as partes do seu kit, de mosquitões wire gate e modernas botas, a capacetes de polietileno. Uma das maneiras mais fáceis de poupar peso é usar uma mochila leve e a prova d’água.

Se você pretender ir leve e rápido em uma rota, o melhor é que seja uma via que você já fez. Assim você conhece o caminho, sabe o que precisa, e pode com segurança fazer uma dieta extrema no seu rack. Se você é fanatico como Hans Florine, famoso escalador do El Cap, faça furos nos seus cams e nuts para reduzir seu peso. Serre o cabo da escova de dente, ou não leve escove alguma! Carregue mosquetões wire gate ultra leves. Uma fina corda de 70m, é leve e comprida o suficiente para permitir que você extenda as cordadas. Apenas lembre que cordadas maiores precisarão de mais proteção.

Logística da leveza

Você precisa de duas cordas pra fazer o rappel? Você estará escalando a maior parte do tempo sob o sol? Caso afirmativo você precisará carregar líquidos suficientes para manter-se hidratado. O tempo está bom ou existe risco de tempestade? Tempo ruim irá exigir roupas extras. Comida é outro tema complexo, barras de proteína e gels são leves e permitem uma rápida re-energização. Você está fazendo uma única via longa ou várias vias em sucessão? Se você for juntar vias pode carregar equipamentos extras e deixá-los na base dentro da mochila. Deu pra entender…

Rápido e leve nem sempre é a melhor solução

Um rack leve fará toda a diferença entre fazer a via em um dia, ou passar dois dias rebocando tralha pra cima. Pratique escalando vias menores com pouco equipamento. Analise e se prepare antes de comprometer-se.

6. “O hábito faz o monge”

O que mais ajuda na velocidade é a pura e simples fluidez na escalada. Qualquer um pode aprender os truques do alpinismo, mas normalmente os mais rápidos são também os mais versados tecnicamente. Para subir o nível e evitar o cemitério, a receita é dominar os conceitos básicos e fundamentais, e pra isso só existe uma receita: escalar, e escalar muito. Repetir, refazer, simular, treinar, e treinar mais, até que todos os processos estejam tão automáticos que você possa fazê-los dormindo.

Escalar, nos torna escaladores. Escalar nos torna melhores escaladores. Você aprende a ser mais eficiente e usar menos energia. Fazendo mais cordadas, fica-se forte e ganha-se resistência. Você se torna mais eficiente em montar e desmontar suas ancoragens e sua cabeça fica mais serena porque você, fazendo mais milhas, com o tempo ficará menos assustado, e terá menos tempo pra ficar pensando na exposição e movimentos duvidosos, simplesmente porque estará voando sob eles.

Técnica, gerenciamento e organização

7. Nutrição e Hidratação

Tenha certeza de não ficar cansado e preguiçoso e parar de se alimentar e hidratar corretamente. Tenha líquidos e petiscos ao alcance, de forma a garantir um fluxo constante de carboidratos. Tente manter-se sempre fresco enquanto escala, isso ajuda a prevenir hiperaquecimento e desidratação, o músculo trabalha melhor quando levemente frio. Use uma jaqueta na hora da seg ou quando estiver parado.

Um camel back facilita e acelera a hidratação porque você não precisa parar para tirar a garrafa da mochila. Lugares mais frios podem requerer que o frasco e até mesmo a mangueira sejam devidamente isolados para evitar congelamento.

8. Gerenciamento da tralha

A troca de equipos entre parceiros toma bastante tempo e requer consideração. Ao recolher os equipamentos tente sempre mantê-los em sua cadeirinha de uma forma organizada, o que irá facilitar passá-los adiante. Se você não está em terreno muito difícil, pode valer a pena colocar os nuts de volta no mosquetão correto ao invés de deixá-los pendurados na costuras, bem como em encurtar os extensores (costuras alpinas).

O ideal é que você e seu parceiro tenham formas similares de distribuir os equipamentos na cadeirinha, também ajuda muito se ao recolher a tralha você a distribuísse em uma fita ou cordelete, dessa forma tudo o que você precisará fazer quando chegar na parada é passar o molho todo (muito cuidado nessa hora) ao seu parceiro.

9. Gerenciamento da parada

A primeira coisa ao chegar na parada é fazer-se seguro, uma vez fora de perigo, e antes de começar a dar seg para seu parceiro, você deve preparar a área para recebê-lo. Considere todas as implicações: arrume espaço para recolher e colocar a corda, bem como um local para seu parceiro chegar, relaxar e trocar a tralha com você de maneira cômoda e segura. Se possível, até mesmo deixe colocada a próxima proteção, isso da agilidade e logo de cara protege o seg de um fator 2.

Normalmente uma segurança indireta – com o ATC na proteção ao invés de na cadeirinha – é rápido de montar e, caso você esteja usando um aparelho com blocagem automática, permite que você fique com as mãos livres para arrumar a corda, hidratar-se, ou resolver qualquer eventualidade.

Ao trazer meu parceiro, gosto de deixar a corda bem tensa porque assim ele pode subir mais rápido sem receio de uma queda – isso não é ideal caso envolva alguma travessia mais delicada, pois você pode acabar desequilibrando-o ao invés de ajuda-lo.

10. Gerenciamento da corda

Gerenciamento da corda é com certeza uma das tarefas que mais toma tempo durante a escalada. Simplicidade é o segredo. Longos extensores e cordas gêmeas ou simples (quando apropriado) fazem a manipulação mais simples e limpa. Considere escalar todo o comprimento da corda e levar um fino cordelete apenas para puxá-la durante o rappel (dyneema de 5.5m é o que se usa normalmente). Essa técnica tem diversas vantagens quando você tem que puxar, escalar artificialmente, ou jumarear, e é muito usada em vias mixtas difíceis nas grandes paredes. Nos Alpes, isso é melhor aplicado em vias de gelo onde existe pouca fricção ao puxar-se as cordas do rappel, ou em rotas em que você pretende descer por uma via fácil, e leva uma segunda corda apenas como backup.

Pessoalmente, os maiores problemas que tive com corda se devem em grande parte a forma como eu ou meu parceiro a tratamos durante a subida do segundo. Nessa hora, usar um sistema auto-blocante faz toda a diferença pois permite que você vá dispondo a corda em loops, ao invés daquela porquice embolada no canto. Os loops devem começar grande e ir ficando menores para evitar que se enrosquem um no outro. Jamais deixe-os escorrerem muito longe, ou você corre o risco deles ficarem presos em alguma protuberância, e aí vai ser um inferno.

Quando seu parceiro chegar até você, preste atenção para que lado ele vai, e onde pisa, ou vocês podem acabar passando “por dentro da corda” sem perceber, e correm o risco de até mesmo algum nó aparecer no sistema. Faça tudo com calma, sempre atento a de onde a corda vem e para onde vai.

Algo bem interessante que fiz algumas vezes foi levar no bolso um saco plástico grosso, que eu uso para recolher a corda. Isso faz o processo de mover e recolher a corda muito mais simples, especialmente quando as paradas são pouco espaçosas.

11. Blocantes

Pense em gerenciamento de tempo até os últimos detalhes. Até o final, enquanto se escalada em terreno protegido, tudo deve ser feito enquanto se está dando segurança, o que inclui comer, beber, olhar o guidebook, etc. Usar um blocante que permita travamento automático (ATC Guide, Reverso, …) significa que você pode dar seg e ao mesmo tempo, de forma segura, tirar suas mãos da corda e cuidar de outras tarefas.

12. Crampons

Aprenda a escalar rocha de maneira rápida e eficiente usando crampons. Isso é uma técnica que precisa ser treinada a exaustão e irá poupar horas em trocas de calçados quando deparado com seções técnicas de rocha pura. Aprenda a ter confiança nos crampons sob qualquer tipo de terreno, rocha lisa/podre, terreno misto, neve, gelo, …

13. Rappel

Tenha um sistema seguro e eficiente para fazer o rappel. Uma descida rápida e descomplicada irá poupar inúmeras horas de aborrecimento. Pontos cruciais incluem:

– Use um rabo-de-vaca para se conectar as paradas rapidamente.

– Use um prussik frânces como backup, e forma de manejar a corda com segurança durante a descida.

– Mantenha a comunicação simples. Algumas pessoas usam um grito tirôles para indicar que a corda está livre e pronta para o próximo, isso é fácil de distinguir quando se escala perto de outros grupos.

– Mantenha o grupo ativo durante todo o tempo: Por exemplo, enquanto um está puxando a corda, o outro está preparando e a passando pela próxima ancoragem. Assim que o nó chegar, o primeiro debaixo pode encordar-se e começar a descida enquanto o resto da corda está sendo puxada. Isso tipo de continuidade é a chave para um rappel rápido e eficiente.

– Marque o meio da corda: se você sabe onde está a metade da corda, pode passá-la direto pela ancoragem, até o ponto central, e então rapidamente jogar direto ambos os lados pra baixo. Não esqueça de dar um nó (parada, oito, pescador, …) ao final de ambas as pontas para evitar o risco de rappelar pra fora da corda. A marcação central também facilita na hora de enrolar a corda nas costas para transporte, e quando se está escalando esportivamente, seja subindo ou baixando o parceiro.

Se a sua corda não for marcada você pode comprar uma corda bicolor, que muda a cor ou o padrão da costura no meio, ou também pode marcar a corda com uma caneta especial, mas isso pode enfraquecer a corda. Você também pode passar uma fitinha no meio, mas isso não funciona muito bem.

– Alternativas leves: precisa de duas cordas para descer? Uma solução é escalar com cordas gêmeas ou duplas, mas se você não tem esse hábito pode ter um pouco de trabalho para se adaptar. Uma alternativa é o guia puxar uma corda fina (7.5 a 8mm). Uma vez na parada, o guia puxa todo o resto da cordinha e apenas então a corda guia. Dessa forma se a cordinha ficar presa o segundo pode desenroscá-la. Outra vantagem desse sistema é que se o guia precisar de algum equipamento extra, o segundo pode amarrá-lo e passá-lo através dessa corda.

Continua…

Murilo Lessa é natural de Piracicaba e desde 2008 mora em Londres, na Inglaterra. Analista de Sistemas, também pratica canyoning, trekking, e é piloto de paraglyder. Se dedica a escalada e ao montanhismo desde 2009, e faz mil malabarismos para balancear treinos e ambições egoístas com a família e o trabalho.

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