Crítica do filme “‬⁨Psycho Vertical”

Existem algumas ocasiões específicas as quais vivemos e que temos a oportunidade de conhecer verdadeiramente a psique e caráter de uma pessoa. Quando há dinheiro envolvido ou quando estamos em uma escalada são uma destas oportunidades.

Especificamente na escalada, quando temos tempo de sentar com alguém que queremos conhecer, temos a oportunidade de saber segredos e pensamentos de algum companheiro de corda.

Nas viagens para algum lugar considerado paraíso da prática do esporte, como Valle Encantado, Piedra Parada, Valle de Los Condores, El Chaltén e Yosemite, pode tornar as pessoas mais amigas ou acabar por torná-las inimigas. Saber como é de ser verdade uma pessoa pode parecer interessante, mas também é totalmente assustador. Tudo depende do que é revelado.

Esta foi a missão que a produtora britânica Jen Randall teve quando decidiu realizar o filme “‬⁨Psycho Vertical”. Se documentar um dos maiores escaladores de big wall de seu país, esta que é uma das melhores diretoras de filmes outdoor da Inglaterra ainda teve mais um ingrediente: produzi-lo baseado em um livro. Realizar um documentário de escalada que siga uma obra literária autobiográfica raramente (ou nunca) é feito.

O protagonista de “‬⁨Psycho Vertical” Andy Kirkpatrick é uma verdadeira lenda viva em seu país. Escalador, montanhista, autor de livros, palestrante motivacional, possui no seu currículo uma infinidade de feitos como, por exemplo, ter escalado o El Capitan, localizado em Yosemite, mais de trinta vezes (incluindo cinco em solitário). Tentar de penetrar as várias camadas que compõe a personalidade de Kirkpatrick, sem parecer uma propaganda promocional do protagonista, foi o principal desafio de Randall.

Com um ritmo bem mais lento que a maioria das produções outdoor, “‬⁨Psycho Vertical” constrói o filme em três linhas paralelas: declarações sobre sua vida e personagens de Andy Kirkpatrick, uma escalada em artificial em Yosemite e imagens da vida atual. O ritmo mais cadenciado da produção tenta reproduzir a mesma velocidade de uma escalada em artificial (estilo pouco documentado em produções).

Este talvez seja a obra mais artística de Jen Randall até o momento. Com produções de qualidade no seu portfólio, como “Push It“, “Project Mina” e “Operation Moffat“, a diretora na produção de “‬⁨Psycho Vertical” fez o que muitos diretores, até mesmo Hollywoodianos, não fazem: sair da zona de conforto. Realizar um filme diferente de tudo o que é produzido até o momento é um desafio que poucos se arriscam. Para isso é necessário, ter além de vontade, muito talento para entregar uma produção de qualidade. Isso a diretora britânica mostrou ter de sobra.

Documentando Andy Kirkpatrick, Jen Randall mostra um personagem real e humano. Opta por mostrá-lo por vários ângulos de uma história de vida. Mesmo em um ritmo lento, que parece não sair do lugar em algumas partes, a diretora vai desnudando cada camada da personalidade e da vida do protagonista. Desta maneira “‬⁨Psycho Vertical” não é um filme homenagem, mas um mergulho na carreira e vida de uma pessoa que é considerada ídolo.

Afastando-se da prática da maioria das produções sobre ídolos, que tendem a serem muito reverenciais, Randall na verdade consegue não fazer nenhum tipo “babação de ovo”,. O foco de “‬⁨Psycho Vertical” é atentar-se ao ser humano, mostrando os erros e acertos de suas decisões pessoais ao longo da vida, assim como os traumas, arrependimentos e tristezas.

Somando todos os elementos, “‬⁨Psycho Vertical” é um filme interessante, embora ainda pareça um pouco à frente de nosso tempo em termos de premissa (é inspirado em um livro), ritmo (mais lento que a maioria) e abordagem (não é reverencial). Mesmo assim permite que o expectador possa ver o amadurecimento de uma diretora que possui um talento acima da média. Se antes Jen Randall era um diamante bruto, à espera de uma lapidação, sua mais nova obra evidencia que este processo já começou.

Nota Revista Blog de Escalada:

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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